REPORTAGENS











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Discípulo de Renato Russo solta a voz

Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião, se revela como cantor em "Jardim de Cactus"

Correio de Uberlândia MG - 05/02/2007
Adreana Oliveira

        A turnê "Jardim de Cactus" de Dado Villa-Lobos passou por Uberlândia. Além do registro audiovisual na mente dos presentes, na noite de 19 de janeiro no London Pub, seu protagonista deixou algo mais para a cidade. O músico conversou com o CORREIO sobre a carreira, show business, um pouco da vida pessoal e deixou claro sua estima pela cidade, da qual tem boas lembranças das turnês da Legião Urbana.

        A banda o revelou para o mundo da música assim como a seus companheiros Marcelo Bonfá (baterista) e Renato Russo, principalmente Renato Russo. Após a morte do vocalista, ícone de uma geração, em 1996, Marcelo e Dado anunciaram que a banda acabaria ali. Após anos de certezas, a bordo do talvez mais representativo grupo de rock nacional, abria-se à frente do guitarrista, compositor, vocalista e arranjador, um novo horizonte cheio de incógnitas.

        Na Legião, ele teve literalmente o mundo aos seus pés: lotou estádios, virou hit no rádio e na TV e encantou multidões. Demorou quase dez anos para se aventurar em um trabalho-solo. "Nesses 10 anos, eu não fiquei parado. As pessoas falam "ah, você está sumido". Não estou, eu trabalho, faço música, mas elas só querem saber do que está estampado na capa das revistas", comentou. Dado sabe que na montanha-russa do sucesso não é possível permanecer no topo todo o tempo. "Não deixo esse clichê de estrela do rock interferir em minha vida", garantiu.

        Com uma serenidade latente nos olhos, ele confessa que prefere ficar fora do mundo das celebridades. "Não acredito no personagem que as pessoas pensam que eu sou ou naquela imagem que tentam passar a meu respeito", comentou. Dado Villa-Lobos vive de música, esse é o seu trabalho e ponto. Não é um alucinado pela fama. "Quando encontro alguém que entrou nessa onda, eu acho patético. O tombo é grande e você pode sair muito machucado", comentou.

        Tal comportamento não o afasta do seu público, dos seus ouvintes. Em uma conversa regada à cerveja bem gelada, ele fica à vontade para dizer que a Legião Urbana jamais voltará aos palcos. Mas, admite que tributos, festas e, em algumas ocasiões, o repertório da banda estará presente em peso. "É algo para relembrar aqueles momentos, com pessoas que sempre nos acompanharam. O Legião Urbana como banda, com músicas novas, não volta mais", enfatizou.

        Seu trabalho de estréia foi recebido com curiosidade. A crítica insiste nas comparações, mas Dado não parece se importar. "Crítica musical especializada no Brasil dá para contar nos dedos", ressaltou. Dado afirma que está aprendendo a cantar, para isso, teve o melhor dos professores [Renato Russo] e todos sabem que muitas vezes uma crítica chega sem o aprofundamento no trabalho. "Cantar é como aprender um instrumento novo, não é de uma hora para outra", lembrou.

        "Fora daqui eu seria um eterno estrangeiro, um alienígena cultural".

        Dado Villa-Lobos é apaixonado pelo Brasil. Filho de diplomata, nasceu "por acidente" em solo belga em 29 de junho de 1965. "Sou filho de funcionário público, fui registrado no consulado brasileiro na Bélgica e, portanto, solo pátrio", lembrou. Da Bélgica, Dado foi com os pais para o Uruguai, depois Iugoslávia, Montevidéu e, finalmente, Brasil, em 1971. "Morei em Brasília de 71 a 75. Depois passei quatro anos na França e senti uma saudade danada daqui. E, nesta época, Brasília ainda era uma cidade inóspita", contou.

        Ele poderia ter escolhido qualquer outro País para viver e criar seus filhos, hoje jovens de 17 e 18 anos, mas escolheu ficar aqui. "Não sei bem por que, deve ser isso que chamam de sentimento de patriotismo. Fora daqui eu seria um eterno estrangeiro, um alienígena cultural", revelou. Dado se sente revoltado e indignado como qualquer cidadão brasileiro diante de escândalos políticos, violência gratuita e má distribuição de renda. "Essa fase de indignação, o Legião conseguiu passar bem nas suas músicas", citou.

        Ele desdobra-se em tudo que a carreira de músico pode oferecer. Enquanto muitos passam dias reclamando da falta de oportunidade e tentam de tudo para emplacar capas de revista, Dado opta por produzir independente de ter ou não seu rosto passeando pelos mais diversos meios de comunicação. O aventureiro louco pela natureza e por esportes tem muitos projetos engatilhados, mas, disco novo, sucessor de "Jardim de Cactus", só em 2008. "Terá outro foco. Como me disseram, agora sou um intérprete e posso fazer muitas coisas em formatos diferentes", afirmou. Dado quer descobrir novas músicas e tem ainda o projeto de trilha sonora para duas peças de teatro, um filme e para a segunda temporada do seriado brasileiro Mandrake.

        Seu disco está todo disponível em seu site, www.dadovillalobos.com.br, e o músico sabe que é melhor ter a internet como uma aliada, mesmo quando a massificação o preocupa. "Hoje tem essa onda emo, o pessoal canta musiquinhas de amor e daí se propaga na rede de tal forma que eles entopem os lugares onde tocam", explicou. "Fenômenos" como este ainda terão que provar o seu valor e isso só será possível com o tempo. Dado citou o Los Hermanos como uma das boas bandas nacionais da atualidade. "Vão fazer o quinto disco e chamam muita gente com um som de qualidade." Mas para ele, o importante é a guitarra distorcida estar presente, propagando o rock.

        Em entrevista anterior ao show de Uberlândia, Dado Villa-Lobos disse que surpreenderia. E o fez. Com lotação total no London, abriu o set com três composições de "Jardim de Cactus: "Seres Estranhos", "Como Te Gusta" e "Dias". A recepção do público foi calorosa, porém, aos primeiros acordes de "Perfeição", primeira da Legião Urbana a ser tocada na noite, a reação foi inflamável. Muitos que estavam ali foram a algum show da Legião em Uberlândia. Outros conheceram a banda por meio dos pais e se surpreenderam ao ouvir um trecho de "Come as You Are", do Nirvana.

        Dado tocou guitarra, violão e cantou. O suor que escorria pelo seu rosto era tão intenso quanto seu prazer em estar no palco. Recrutou um time de primeira para acompanhá-lo: Ulisses (guitarra), Fred Nascimento (guitarra, violão e gaita), Lourenço (bateria), Roberto (teclado) e Laufer (baixo), abrilhantaram a festa. Nos poucos números em que se apresentou sem a guitarra, foi perceptível que ele fica muito mais à vontade com ela.

        Rolaram covers de Bob Dylan ("Rainy Day Woman"), The Jesus and Mary Chain ("Head On") e The Clash ("Guns of Brixton"). Para os fãs do Clash, que não conheciam a versão de Dado, foi uma surpresa ouvir um cover do grupo que não fosse "Should I stay or Should I Go?". Dado prometeu músicas óbvias da Legião e lá estavam "Será", "Eu Sei" e "Geração Coca-Cola". Ele prometeu outras não tão óbvias. Tocou "Dado Viciado" e antes lembrou que a Legião nunca tocou a música ao vivo e fez questão de reafirmar que ele não era o personagem da canção. Tocaram "Montanha Mágica", também pouco executada pela Legião. Entre as canções próprias, "Diamante" e "Dias" foram os pontos altos. A audiência aplaudiu, pediu bis e uma longa fila formou-se na porta do camarim. Mesmo com quase quarenta graus no local e do aperto, o músico recebeu muitos fãs, que com certeza saíram de lá com uma trilha na cabeça: "Um Dia Perfeito".

        Dado Villa-Lobos por Dado Villa-Lobos
        "Logo que entrei na Legião tivemos que mostrar uma música para a gravadora. Eram três acordes, como eu ouvia muito Gang of Four na época, saiu aquele "tlin, tlin..." de "Ainda é Cedo".

        "Tive meus momentos de envolvimento com álcool e drogas. O Renato [Russo] me chamava de presidente do Clube da Criança Junkie. Mas, hoje eu sei me controlar"

        "Sou casado há mais de 20 anos, tenho dois filhos. Quando os amigos deles me conhecem rola um respeito. Mas, em pouco tempo, os moleques perdem o respeito, começam a chamar de tio e esculhambar no futebol".

        "Sou diabético há mais de 30 anos, por isso preciso me cuidar, segurar a onda todo dia. Adoro esportes, sou um cara diurno, gosto de ver o sol nascer. Sobre meu aspecto jovial, deve ser uma questão genética".

        "Falar sobre mim é como me automedicar, mas vamos lá. Eu amo meu trabalho, me estimulo com ele. Faço música. As bandas que eu ouvia transformaram minha vida e acho que quero fazer isso também. Quero mais é interagir. Tenho uma generosidade determinante e noção de amizade. Sou um cara superdesprendido".

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"Não sei nem se estou mais na minha, nem na sua vida"
"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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