REPORTAGENS











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Jardim de Cactus MTV Apresenta - Dado Villa-Lobos

22/11/2005
Arthur Dapieve

        Para falar de Jardim de Cactus, primeiro álbum solo de Dado Villa-Lobos, preciso antes confessar um arrependimento em relação ao livro "BRock - O rock brasileiro dos anos 80". Se tivesse de bolar o título hoje, e não dez anos atrás, quando ele foi publicado, trocaria a contração "dos" pela contração "nos". Repare só. "Rock brasileiro nos anos 80" soa transitório, bem menos restritivo. O definitivo "dos" encarcera uma geração de músicos extremamente talentosos no passado, como se eles não tivessem feito nada de importante ou diferente desde então, como se eles se confundissem com os contemporâneos menos talentosos, que vivem do passado, graças a um saudosismo estéril em torno dos anos 80.

        Este Jardim de Cactus, portanto, é um argumento contundente a favor do ponto de vista acima, a favor do meu arrependimento, como a produção de Paralamas, Titãs, Barão Vermelho, Capital Inicial. Pelo seu CD, somente, ninguém jamais diria que Dado foi guitarrista da Legião Urbana. Não que ele se envergonhe disso, nem teria por quê. É que não há nada no som que lembre a banda ou, sequer, a década em que ela surgiu. É um disco do aqui e, sobretudo, do agora. Adotado por Renato Russo como um irmão caçula, Dado ainda é um jovem de 40 anos, cheio de idéias que partem e voltam ao século XXI. Faz rock, pop, MPB, eletrônica, toca clássicos como Caetano. E, novidade, canta.

        Como Dado admite no seu texto "Introdução ao Jardim de Cactus", talvez o fato de ter convivido tanto tempo com Renato, "um grande cantor, o maior...", o tenha inibido a soltar a voz até agora, suave, bem colocada. Daí ter passado quase dez anos, desde a morte do amigo, ou quase quatro anos, desde que começaram os trabalhos de "Jardim de Cactus", enrolando, enrolando. Enrolando em grande estilo, que fique claro: compondo as trilhas dos longas "Bufo & Spallanzani" e "O Homem do Ano", produzindo Toni Platão e Devotos, excursionando com os irmãos dos Paralamas do Sucesso, astral total. Por isso, o CD soa tão pronto, tão bem acabado, graças ao vagar da produção dividida com Laufer.

        O compositor e intérprete Dado reuniu um time variado de parceiros e músicos, gente de várias formações e gerações: Paula Toller (letrista da faixa de abertura, que dá nome ao disco, e de "Dias", do achado poético "governos me esfolam/ mulheres me desgovernam"), China (das psicodélicas, syd-barretianas "Cores em Mim" e "Nos Lençóis"), Toni Platão (na sensual "Como te Gusta?"), Laufer ("Laufunk"), Laufer e Fausto Fawcett (na divertidíssima "Faveloura & Lov"), Lourenço Monteiro ("Tropeço"), Humberto Effe ("Quase Nada"), Effe mais Gustavo Dreher mais Ivo Barroso ("Natureza"), Luiz Zerbini ("Dois Ouvidos"). De quebra, o CD tem Beto Guedes e Caetano Veloso ("Luz e Mistério"). Entre as participações, Paula, Toni, Fausto, Effe, Thalma de Freitas, Cecília Spyer, Amanda Telles e... Chico Buarque. É, ele, o autor de "A Banda" e "Budapeste". Chico recita Ivo Barroso. Sem quebrar a integridade artística de um trabalho tão longa e cuidadosamente concebido, a variedade de idéias próprias e contribuições alheias transforma a audição de hora e pouco numa sucessão de surpresas, todas elas atuais, contemporâneas, avançadas. Assim, "Jardim de Cactus" nem se conforma com o passado e nem se esgota no presente. Um belo lance de Dado. Um disco de futuro.

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"Não sei nem se estou mais na minha, nem na sua vida"
"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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