REPORTAGENS











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Música para Dois Ouvidos

Dado Villa-Lobos assume o microfone em carreira solo, nove anos após o término da Legião Urbana, banda-ícone do rock nacional. Guitarra em punho desfila faixas compostas com parceiros e versões amplificadas por convidados, registradas no cd inédito, Jardim de Cactus e também em CD DVD homônimo gravado ao vivo, no Teatro Dulcina, Rio de Janeiro, para especial MTV Apresenta, exibido pela emissora em novembro

Revista Gávea - 2005
Gabriela Varanda

        Parte desavisada da platéia do Teatro Dulcina, provavelmente, esperava mais um bocado de anos 80, naquela noite de abril na Cinelândia. Afinal, Dado Villa-Lobos, a atração aguardada, empunhou, por mais de uma década, uma das guitarras mais importantes no período de afirmação do rock nacional.

        A bela arquitetura do teatro implorando por uma reforma urgente aumentava a sensação de uma noite rock´n´roll. E o visual se impunha de maneira instigante: o maquinário do palco, que não mais existia, completamente exposto ao público, somava-se à expectativa de intervenção do artista plástico Luiz Zerbini, que riscaria as paredes com projeções.

        Nos camarins, o cantor Toni Platão, um dos convidados da noite, contava mais uma piada, e quebrava, marotamente, a concentração da banda. E assim estava definido o time: na bateria, Lourenço Monteiro, Laufer, no baixo, nos teclados, Roberto Pollo, a jovem Lia Galdino nos vocais, Fred Nascimento e Carlo Bartolini, violões e guitarras, e Dado Villa-Lobos, voz e guitarra.

        Gruas e câmeras da MTV varriam o local quando a banda introduziu a sensacional faixa instrumental Dois Ouvidos, composição de Dado e Luiz Zerbini. A voz incidental do maestro Heitor Villa-Lobos atravessou a parede sonora, como que adiantando um possível epílogo: "Deus nos botou dois ouvidos pro seguinte: quando a emoção é grande, ouve-se com os dois ouvidos, quando ela não é muito grande, entra por um e sai por outro (risos). Essa é que é a forma natural da gente ser sincero, em favor da arte universal".

        É a deixa para a bela e árida Jardim de Cactus, cercada por imagens do deserto nas mãos de Zerbini. Dado recebe a cantora Paula Toller, parceira de longa data, autora da letra da canção que dá nome ao trabalho. Lirismo áspero, falação rap, melodia que ecoa nos balcões do segundo andar: "Não sabe se quer / não sabe o que é bom ou ruim / Não sabe se quer / o que você planta no seu jardim".

        As climáticas faixas de abertura pegam de assalto a platéia e apontam para outras direções. "O repertório do meu trabalho solo foi permeado por todas as minhas referências musicais até hoje. No disco de estúdio, que também será lançado paralelamente ao CD/DVD do especial da MTV, meu pai, por exemplo, interpreta uma peça de Chopin numa faixa-bônus, uma lembrança marcante da minha juventude, quando ele tocava piano, todo dia, para a família", explica o músico.

        Dado assume o leme por definitivo e apresenta à platéia do Dulcina parcerias com o pernambucano China, em Cores e Nos Lençóis, Dias, também com Paula Toller, e Tropeço, com o baterista Lourenço Monteiro. Mostra ainda a visceral Como Te Gusta?, acrescida do poderoso vocal do parceiro Toni Platão, e Quase Nada, a quatro mãos com Humberto Effe, que também assina a letra da surpresa-groove Laufunk, música de Laufer com caprichados vocais suingados do próprio Effe e da convidada Thalma de Freitas. O atento repórter do cotidiano Fausto Fawcett aparece ainda para um insólito duo rap, na irresistível Faveloura & Lov, do trio Villa-Lobos/Fawcett/Laufer.

        Natureza, outra faixa inédita, composta com Humberto Effe e Gustavo Dreher, tem participação especial de Chico Buarque, recitando versos do poeta maldito Arthur Rimbaud, traduzidos por Ivo Barroso. Tabela de elegância total, que pode ser conferida no CD de estúdio, mas que também ganhou uma performance ao vivo no Dulcina, com a voz gravada de Chico.

        Entre as versões apresentadas durante o show, pérolas sonoras da sensacional dupla gaúcha budista-rock Os The Dharma Lovers, em Diamante e Seres Estranhos, esta última com participação de Nicolau Villa-Lobos, filho de Dado, e de Luiz Zerbini, Barrão e Sérgio Mekler, o grupo Chelpa Ferro, e muitas, mas muitas guitarradas caóticas. A jovem estreante Lia Galdino divide ainda os vocais com Dado, na calminha Luz e Mistério, clássico de Beto Guedes e Caetano Veloso.

        Para fechar as participações em grande estilo, Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, os Paralamas do Sucesso, juntam-se a Dado para celebrar a amizade desde os tempos de Brasília, numa versão do reggae pesado The Guns of Brixton, do Clash, e na emblemática Conexão Amazônica, antiga composição de Renato Russo e Felipe Lemos, gravada pelo Legião Urbana em seu terceiro álbum, o ainda atual Que País É Este?, lançado em 1987.

        Ao todo, são 16 músicas no CD/DVD do especial da MTV e 13 faixas no CD de estúdio (Seres Estranhos, The Guns of Brixton e Conexão Amazônica aparecem somente em versões ao vivo). "Esse trabalho é composto por fragmentos musicais que me acompanham. Um reflexo intuitivo do que me emociona agora", completa o músico. "Coleciono repertório há algum tempo, mas o Laufer (co-produtor do CD inédito) finalmente me botou para trabalhar", diverte-se.

        A fase pós-Legião Urbana é marcada ainda pela produção de trilhas originais para cinema e televisão. "Já compus para longas como Bufo & Spallanzani (2001) e O Homem do Ano (2003) e também para Mandrake (2005), seriado exibido pelo canal de TV a cabo HBO, todos produzidos pela Conspiração Filmes", enumera o músico.

        Seu gosto pelo estúdio também aparece na produção de discos de novos artistas, como em "Um Só" (2004), álbum de estréia do pernambucano China, ex-Sheik Tosado, lançado numa parceira entre o selo Cardume e a EMI, e, principalmente, à frente da Rock It!, selo independente que colocou no mercado CDs de bandas como Moreno + 2, Comunidade Nin-Jitsu e Ultramen, e que agora lança o trabalho solo de seu big boss, com distribuição da gravadora EMI.

        Sobre a nova fase como artista solo e o lançamento do seu trabalho, Dado demonstra confiança, no aconchego de seu estúdio na Gávea. "Estou feliz, e com pilha para cair na estrada", conclui, com seu característico sorriso tímido. E ouvidos atentos, a favor da arte universal.

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"Não sei nem se estou mais na minha, nem na sua vida"
"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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