REPORTAGENS











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Aprendendo a se virar

Sonho de gravar CD fez com que Allan e Liés, da banda João de Barro, entrassem no curso

Projeto VIVA FAVELA - 02/12/2004
Carlos Collier

        Faça você mesmo. Esse é o espírito de um curso de Produção Musical que está ajudando músicos de baixa renda do Rio a investir em suas próprias criações. Os alunos são jovens como os irmãos Allan e Liés de Góis Alves, de 23 e 25 anos, moradores do bairro de Olaria, na Zona Norte carioca. Integrantes da banda João de Barro, eles já estão há dois anos na estrada. Sonhavam em gravar um CD mas não viam como - o custo de um estúdio de gravação era alto demais. Há cerca de dois meses, mudou tudo.

        Allan e Liés agora são alunos de um curso gratuito realizado no Sesc (Serviço Social do Comércio) Ramos. "Eu nem sabia que existia este tipo de curso. Não perdemos tempo e nos matriculamos na hora", conta Allan. Junto com eles, outros 23 jovens de baixa renda, moradores de comunidades do Rio como Alemão e Maré, estão aproveitando a oportunidade.

        O idealizador do curso, que ensina técnicas de gravação, é o músico Emerson Facão, morador da Nova Holanda, favela do Complexo da Maré (Zona Norte) e colunista do Viva Favela. Facão é também poeta e sabe do valor de um empurrãozinho na vida dos moradores de comunidade. Ele mesmo juntou seu primeiros discos e livros garimpando no lixão da Maré.

        Dificuldades, diz Facão, que só fizeram aguçar sua criatividade. Ele lembra que quando era criança, pegava o toca-fitas da mãe e ficava alterando as músicas e estudando os timbres do instrumentos. Hoje, como professor dos jovens alunos, Facão sabe que mais do que saber tocar, o artista precisa aprender a se virar de várias maneiras.

        Como no tempo dos Beatles

        "Estou passando formas alternativas para o músico desenvolver seu trabalho sem precisar usar grandes recursos tecnológicos", explica Facão. Eles aprendem, por exemplo, a operar uma mesa de quatro canais, manipulando recursos como voz e instrumentos musicais. "Essa mesa de som era usada pelos Beatles, no anos 60. Mas ainda continua valendo", diz o poeta.

        Ao sairem do curso, que começou em outubro e vai até 13 de dezembro, os artistas estarão habilitados a trabalhar como 'holdings' (rapazes que carregam instrumentos para os músicos), vão poder montar o som do palco para um espetáculo ou trabalhar como operadores de áudio numa rádio.

        O projeto aborda ainda detalhes dos bastidores da música, como a importância de vestir a roupa certa para subir num palco. Tema explorado por um convidado muito especial - o músico Dado Villa-Lobos (Legião Urbana), que aceitou o convite de Facão para levar um pouco da sua experiência para os alunos.

        "Fiquei impressionado com a força de vontade destes garotos. O som da banda João de Barro é de primeira", fala Dado. Durante a visita, o músico contou para com os garotos a importância da música em sua trajetória, explicou como é a vida de um músico bem-sucedido e tocou músicas da Legião junto com eles.

        "Foi uma experiência muito interessante. Mesmo eu, que tenho uma visão ampla do Rio, tenho poucas oportunidades igual a esta, de ir a lugares como Ramos. Pelo fato de não sermos de lá, precisamos que alguém nos leve", conta Dado.

        "Nossa, ninguém acreditou que ele estava aqui. O cara é um dos músicos mais importantes do cenário musical brasileiro. A conversa foi muito legal", diz Facão. A idéia era convidar outros músicos, mas o poeta confessa que ficou preocupado com a violência de Ramos. "Já aconteceu de estarmos aqui nas aulas e ao mesmo tempo estar rolando tiroteio na rua", conta.

        Aulas de filosofia

        Os alunos estão aprendendo cada etapa do processo de produção de um CD, desde a pré-produção, passando pela gravação e, por último, a divulgação. A festa de formatura, no dia 18 de dezembro, a partir das 16h, na cobertura do Sesc, vai contar com um show onde o público poderá conferir o som dos alunos, da banda João de barro e de Emerson Facão. A entrada será gratuita.

        Facão, que é apaixonado por leitura, não quis restringir o curso ao ensino de técnicas de produção e gravação. Decidiu incluir também uma abordagem geral sobre a área musical, incluindo história da música, história geral, sociologia e filosofia, além de uso do som em peças de teatro, rádio e concertos.

        Allan e Liés tiveram uma nova surpresa, quando viram ainda a exibição de vídeos e a oficina poética, que tem por objetivo estimular os garotos a transformar suas idéias em letras de música. "Incentivar a prática pela leitura e escrita é o primeiro passo para desenvolver a criatividade de cada um", explica Facão.

        Bruno Nunes, de 25 anos, morador de Olaria, serviu à Marinha e por um bom tempo foi fuzileiro naval. Depois de ver que aquela não era bem a carreira que pretendia seguir, entrou em forte depressão. E resolveu tentar novos rumos com o curso. Ele conta que está feliz por ter ampliado seus horizontes. "Graças às coisas que estudei aqui, decidi o que vou fazer da minha vida: no próximo ano quero fazer vestibular e estudar filosofia", diz.

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"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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