REPORTAGENS











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Sempre uma nova emoção

Revista Showbizz
Carlos Marcelo

        Quando a segunda lata de cerveja foi arremessada da platéia em direção ao palco na casa noturna Raggae Night, em Santos, Renato Russo não teve dúvidas: jogou-se ao chão, como se tivesse sido violentamente atingido, e se esparramou na frente do set de teclados. Deitado, o vocalista da Legião Urbana ria, fazia caretas para o tecladista Carlos Trilha e olhava o tempo passar em sua nova aquisição: um relógio de pulso com motivos religiosos, comprado em São Francisco, nos Estados Unidos. Como nos tempos em que ensinava inglês em Brasília nos anos 70, Renato queria punir sua turma pelo desacato à autoridade do professor. Mas, em vez de 15 ou 20 alunos, eram 4.500 testemunhas do último show da maior banda da história do pop-rock brasileiro, em janeiro de 1995.

        Era também o fim da série de apresentações para divulgação do disco O Descobrimento Do Brasil, que havia chegado ao auge nos dias 9 e 10 de outubro de 1994 no palco do Metropolitan (atual ATL Hall), no Rio de Janeiro. Considerado pela própria banda como um dos melhores shows de sua trajetória, o concerto foi gravado e se tornou o mais recente lançamento da Legião Urbana: o CD duplo (também vendido em volumes separados) ao vivo Como é que se diz eu te amo. "É um trabalho coeso, melódico, denso, arrepiante. Para quem ouvir o disco vai parecer que a gente ainda está aí", promete o baterista Marcelo Bonfá. Apesar de confessar que não gosta de discos ao vivo ("só esse da Legião") e de fazer restrições à qualidade do som ("foi muito mal gravado, não tem um puta som de instrumento, só de guitarra"), Bonfá acha importante o lançamento do registro com as duas noites do Metropolitan. "O Renato adorava dizer que a Legião era uma banda de estúdio, mas a gente é rock'n'roll", acredita. Ele diz que submeteu todas as gravações ao que chama de "padrão de arrepiamento" -a capacidade de uma música emocionar o fã. Quem a nota mais alta no arrepiômetro de Bonfá foi "que país é este", recheada de citações, entre elas "Cajuína" (Caetano Veloso) e aquele Abraço" (Gilberto Gil): "Está bem pesada e sarcástica, de assustar criancinha", diz o baterista.

        Como É Que Se Diz Eu Te Amo é, nas palavras de Dado Villa-Lobos, "um belíssimo retrato instantâneo da bagagem de repertório acumulada nos nossos dez anos de carreira, de uma banda se emocionando junto com seu público". O guitarrista garante que não houve overdubs -"não gravamos uma nota a mais". Algumas músicas, porém, acabaram ficando de fora. "'Os Barcos' ficou tão ruim que saiu do disco", revela.

        Os shows no Metropolitan marcaram reencontro da Legião com o público carioca. A banda que morava no Rio de Janeiro desde 1985, não tocava em casa desde 1990. Naquele ano, no lançamento de As Quatro Estações, eles reuniram 40 mil pessoas no Jóquei Clube. A acidentada do disco V, em 1992, não chegou ao Rio. Prejudicada pelas constantes bebedeiras de Renato Russo a excursão acabou atolada nas dunas de Natal (RN). Para evitar o mesmo problema na divulgação de O Descobrimento Do Brasil, as garrafinhas de bebidas alcoólicas do frigobar das suítes reservadas para o vocalista eram retiradas antes de sua chegada e os músicos eram orientados a não beber ostensivamente na frente do cantor.

        Os ensaios no Metropolitan Começavam às 6 da tarde e se estendiam até às 3 da manhã, em clima de nervosismo e tensão. A primeira briga aconteceu entre Renato Russo e Marcelo Bonfá, e por um motivo prosaico: o local estabelecido para montagem do praticável da bateria: "O Renato achou que a bateria estava muito próxima a ele, e começamos a discutir. Saímos no pau mesmo, porque a gente ficava uma pilha de nervos", lembra o baterista. "Geralmente, quando o Bonfá adorava, o Renato odiava, e vice-versa. Eles brigavam muito. Eu era o cara que contemporizava", conta Dado.

        O lado conciliador do guitarrista entrava em ação constantemente para evitar mais conflitos entre os legionários e os músicos de apoio que a banda passou a utilizar com a saída do baixista Renato Rocha, depois da turnê do disco Que País é Este 1978/1987. Para o lançamento de O Descobrimento do Brasil, eram três os profissionais contratados: Trilha (teclados), Fred Nascimento (violões e guitarras) e Gian Fabra (baixo). Cada um deles tem dezenas de recordações marcantes, algumas delas doloridas, dos shows que fizeram com a Legião.

        Como jogar na seleção

        "Foi uma experiência profissional muito sofrida, mas muito legal. Como jogar na Seleção Brasileira", compara o flamenguista Fred Nascimento, que tocava com a banda desde 1990, quando participou da turnê de As Quatro Estações como tecladista Mu e o baixista Bruno Araújo. Munido de guitarra semi-acústica Stratocaster vermelha (presente da Dado, usada no primeiro disco da Legião), Fred tocava a maioria das introduções das canções e também executava alguns riffs levanta-estádios, como o de "Que País é Este". "Não sou um músico virtuoso, mas me encaixava no estilo deles".

        O botafoguense Gian Fabra, companheiro de peladas do tricolor Dado Villa-Lobos no campo de Chico Buarque, não era fã da Legião Urbana antes de ser convidado para fazer um teste pelo próprio Renato durante uma festa. Na verdade, era a Plebe Rude sua banda predileta da turma de Brasília que desceu o Planalto Central nos anos 80. Mas, logo nos primeiros ensaios convenceu-se de que estava entrando numa outra estação. "O Renato tinha o ouvido muito apurado, sabia tudo que estava acontecendo." Uma vez, propositadamente, afinou o baixo de uma forma diferente: passou de 4-4-0 para 4-4-1. Uma variação quase imperceptível. Quase: "Logo na primeira música do ensaio, o Renato falou: 'Gian, afina o baixo, por favor'. Eu não acreditei", conta.

        Gian Fabra lembra de outra característica marcante de Renato durante as excursões: o rigor com a qualidade do espetáculo. "Ele achava que as pessoas que pagavam tinham que ter o melhor. Acreditava nisso como princípio, um compromisso assumido com os fãs.'O tecladista Carlos Trilha reforça: "Ele sentia uma responsabilidade muito grande. O homem era uma antena, captava tudo".

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"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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