REPORTAGENS











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Viver não é só existir, mas criar constantemente!

O diabetes nunca impediu o sucesso do músico Dado Villa-Lobos, integrante da banda Legião Urbana

Revista De Bem Com a Vida - 2001

Regina Nascimento

Na década de 1980, muitas pessoas jamais imaginariam que quem tivesse diabetes pudesse integrar um conjunto de rock e fazer espetáculos demorados sem prejudicar a saúde. Um conceito que muitas pessoas têm ainda hoje. A história do grupo Legião Urbana se confunde com a maneira de seus integrantes interpretarem a vida. Um jeito atuante, despojado, corajoso com o qual muitos jovens se identificam até hoje e composições que estão vivas na memória de muitos e continuam sendo sucesso.

        A Legião Urbana foi formado por uma turma de adolescentes de Brasília em plena época de redemocratização do país, quando todos arranjavam um meio de se expressar, fosse por meio da música, da dança, do cinema, da fotografia ou dos esportes. O músico Dado Villa-Lobos era um desses jovens. Mas para ele o rock exigia mais do que amor e talento, pois o fato de ter diabetes requeria disciplina absoluta.

        Dado diz que sente orgulho de ter vencido preconceitos e nunca esconder que tinha diabetes. "Viver não é só existir, mas criar constantemente. Não importa quem você é ou o que você tem. A felicidade está na maneira como você conduz sua vida. O diabetes não tem nada a ver com o sucesso ou o insucesso. Falar sobre o assunto é gratificante porque com o meu exemplo posso estar ajudando um jovem a conviver com o problema de forma natural", explica.

        Ele assume que aos 36 anos está no meio de sua trajetória de vida e tem muito a criar ainda. O músico narra como descobriu o diabetes: "Aos 11 anos, eu morava em Paris. Foi quando comecei a sofrer desmaios (hipoglicÍmicos) esporádicos. Fui levado ao médico e foi diagnosticado o diabetes. Assim que soube do diagnóstico, devorei sacos de balas e doces como despedida, pois imaginava que nunca mais poderia comer açúcar. Isso desencadeou uma hiperglicemia terrível e acabei hospitalizado no dia seguinte. Acho que as crianças têm uma capacidade de aceitação mais imediata e prática facilitando muito as coisas".

"No início foi complicado. Depois adquiri um maior senso de responsabilidade em relação à saúde em geral"

        Dado tem duas irmãs e um irmão. É casado e tem dois filhos: Nicolau, de 13 anos, e Miranda, de 11 anos. Até agora, é o único caso de diabetes na família.

        "Ao saber do diagnóstico, minha mãe se desesperou como toda mãe que descobre que seu filho tem um problema sério. Passado o trauma, foi se acostumando e virando aquela mãe implacável que monitora a saúde do filho. Até hoje ela não me dá paz", constata.

        "No início, o diabetes alterou muito minha vida. Eu era semi-interno no colégio e passei a almoçar em casa - dieta, disciplina e injeções diárias. Confesso que para um garoto de 11 anos era muito duro. Aos poucos, adquiri um maior senso de responsabilidade em relação à saúde em geral, reconhecendo os sintomas de uma hiper ou hipoglicemia, a importância de uma alimentação balanceada, aprendendo a lidar com os horários das injeções e refeições, e passei a praticar esportes sistematicamente", diz Dado.

        "Conscientizei-me que, cuidando bem do diabetes, poderia viver muito bem. Hoje monitoro a glicose quatro vezes ao dia, em média, tenho alimentação saudável e faço exercícios diariamente. Quando fazia shows essa atenção era redobrada. Apesar disso, cheguei a ter hipoglicemia durante os espetáculos, porém nada que uma Coca-Cola não tivesse resolvido. Levava sempre uma lata comigo. Alimentava-me antes do show e monitorava a glicemia no camarim. Até hoje, quando viajo, monitoro a glicose com mais freqüência" observa.

"Sonho com clones de minhas células beta"

        Dado se define como um cara tranqüilo, mas que também tem seus acessos de raiva e inconformismo. Gosta de viajar, ir ao cinema, teatro e restaurante. "Adoraria ter mais tempo e poder ler mais!" Para ele, os melhores momentos foram o nascimento dos filhos. "O complicado é educá-los!"

        O músico revela que os planos profissionais para o futuro estão bem presentes. "Tenho administrado, na medida do possível, os projetos da Legião Urbana, como o lançamento de um songbook da obra completa da banda; sou dono da gravadora Rockit, onde acompanho os projetos e lançamentos à medida que vão surgindo, e passo a maior parte do tempo no meu estúdio. No ano passado, realizei a trilha sonora do filme O Bufo e Spallanzani e já começo a pensar na próxima trilha do filme O Homem do Ano. Espero terminar e lançar meu disco solo em 2002", vibra.

        Além desses projetos, ele espera ardentemente que a ciência desenvolva um método de controle do diabetes mais fácil. "Quem sabe um relógio que monitora a glicose através da pele, ou clones de minhas células beta", brinca. Dado reconhece que os monitores de glicemia melhoraram muito. Para ele, as pessoas em geral não têm noção do que seja diabetes. "Com certeza o preconceito existe, pois é socialmente inaceitável qualquer tipo de deficiência física. Somos nós que precisamos mudar isso com o nosso entusiasmo e otimismo. O diabetes é uma disfunção, não uma doença. Só depende da gente querer viver bem e ser feliz".

        Dado enfatiza que o objetivo desta entrevista foi passar uma mensagem de otimismo, dando o seu exemplo:

        "Consegui chegar aos 25 anos de diabetes tipo 1 sem seqüela alguma e agora sou homenageado como 'diabético-modelo'. Acreditem, o prognóstico para aqueles que estão sendo diagnosticados agora é bem mais favorável e promissor. Eu jamais fui impedido de levar uma vida normal junto dos meus amigos na infância e adolescência, com todos seus excessos e experimentações. Percebo hoje a importância das pessoas, dos amigos, familiares e médicos que sempre estiveram me cobrando, monitorando e dando o devido apoio esses anos todos. Sou da opinião que o segredo para evitar seqüelas e levar uma vida normal é simplesmente não tolerar níveis altos de glicose no sangue por muito tempo, é insuportável e dá um mau humor terrível. O diabetes não é o problema, o problema maior é conviver com gente baixo astral".

        Um pouco do Legião Urbana

        Em 1983 forma-se em Brasília o grupo que j· vendeu 15 milhões de discos. Suas músicas até hoje são sucesso como, por exemplo: "Geração Coca-Cola", "Será", "Faroeste Caboclo", "Eduardo e Mônica", "Que País é Este?". Mesmo com a morte de seu vocalista Renato Russo, em 1996, a banda está mais viva do que nunca no coração dos fãs. Um pouco da história de cada integrante da Legião Urbana:

Renato Russo (1960/1996)
Vocalista
Considerado pela crítica um dos maiores músicos dos anos 80. A banda vendeu na época mais de 5 milhões de discos "Via Láctea" e o CD "A Tempestade". A razão de tanto sucesso deve ser a combinação de três fatores: as canções fortes e líricas de Renato Russo, sua magistral voz e a qualidade excelente das músicas. Pode-se sempre sentir paixão em suas interpretações e canções.

Marcelo Bonfá, 36 anos
Baterista
Influenciado pelo som do grupo "Aborto Elétrico" formou a Legião Urbana junto com Renato Russo em 1983. Junto com Dado Villa-Lobos participou da remasterização da coletânea "Por enquanto", que reúne todos os álbuns do grupo.

Renato Rocha (Billy Negrete), 40 anos
Contrabaixo elétrico
Ingressou na banda em 1984. Saiu do grupo em 1989, antes do lançamento do álbum "Quatro Estações".

Eduardo Dutra Villa-Lobos, 36 anos
Guitarrista
Nasceu em Bruxelas, Bélgica. É sobrinho-neto do maestro e compositor Heitor Villa-Lobos. Foi para Brasília em 1979 e, na época do "Aborto Elétrico", formou sua própria banda "Dado e o Reino Animal". Em 1983, assumiu as guitarras da Legião Urbana. Juntamente com Bonfá fez a composição e elaborou quase todos os arranjos do repertório. Proprietário do selo independente "Rock it" tem atuado como produtor de discos. Foi responsável pelos dois últimos álbuns de estúdio da Legião. Estão nos seus planos retomar a antiga banda, "Dado e o Reino Animal", com a participação de Bonfá.

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"Não sei nem se estou mais na minha, nem na sua vida"
"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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