REPORTAGENS











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Dado dá a cara para bater

Ex-guitarrista da Legião Urbana sai da sombra e produz trilha e CDs

Jornal O Globo - 02/10/2000

Mário Marques

        O sonho de adolescente de Dado Villa-Lobos era tocar nos Paralamas. Caçula da turma de Brasília, só recentemente o guitarrista da Legião Urbana realizou-o ao juntar-se a Herbert, Bi e Barone, no disco e na turnê do projeto acústico do trio. Como coadjuvante, tocando um violão que soava mais pelo nome que carregava do que propriamente pela execução. Aos 33 anos, porém, Dado em alguns poucos meses pulou a cerca discrição: produziu ativamente dois dos melhores produtos de sua gravadora Rock It! ("Calígula Freejack", de Toni Platão, e o homônimo segundo disco do grupo pernambucano Devotos), compôs a trila do "Bufo & Spallanzani" (baseado no romance de Rubem Fonseca, direção de Flávio Tambelini) e a avança contra o silêncio em seu primeiro disco solo.

        - Minha posição na Legião sempre foi de pouca exposição, eu me sentia confortável lá atrás - diz Dado em seu estúdio na Gávea, onde, além de pilotar os projetos da Rock It!, malha duro numa sala de ginástica, joga sinuca com os amigos e brinca com o inseparável Salvador. - Não quero aparecer, ser a cereja em cima do bolo.

        Dado sabe que há uma cobrança pessoal, de público e imprensa para lançar um disco. À distância, acompanhou a empreitada de Marcelo Bonfá, amigo e baterista da Legião, cujo disco de estréia solo, "O barco além do sol", não foi bem recebido pela crítica. Com a sonoridade associada à Legião (camadas de teclados e ritmos característicos do grupo), o CD sofre com as comparações. Sem criticar o companheiro, Dado diz que fará diferente:

        - Não buscaria aquele tipo de som - admite o guitarrista, que não participou do disco. - Talvez Bonfá tenha achado que ocmigo no projeto essa associação com a Legião seria ainda melhor, sei lá.

        DISCO SOLO TERÁ DE GIL A PAULA TOLLER

        Dado quer fazer de seu disco algo além do bom "Calígula Freejack", de Platão, que já vendeu cerca de dez mil cópias, um trabalho no qual eletrônico e acústico se combinam sem se chocar e sem excessos.

        - Tenho um esqueleto, umas idéias, coisas antigas guardadas e os letristas que devo procurar - conta Dado, que já trabalha na "etéreo/oriental" "Diamante", música do duo gaúcho Darma Lovers. - Devo regravar "No norte da saudade", do Gil e estender umas parecerias com Fausto Fawcett, Paula Toller e Humberto Effe.

        A voz tem cor. Algo confirmado nos vocais de apoio da Legião e na sua aventura mais familiar defronte ao microfone, no disco "Jam 80", lançado em 1999 encartado na revista "Showbizz", no qual canta "Toda forma de poder" (Engenheiros do Hawaii) numa versão punk, em meio a outras versões de canções de bandas dos anos 80.

        Deixou há pouco a administração de sua Rock It! Nas mãos do produtor Victor Kelly e prefere rodar botões na mesa de seu estúdio. Admite que no passado sua gravadora não pensava no mercado. O produto de maior saída foi o Second Come, esdrúxula guitar band do começo dos anos 90 que cantava em inglês. Agora não. Por seu crivo estão passando nomes de consistência artística e potencial comercial. Lançou ano passado o disco do Comunidade Nin-Jítsu, sensação gaúcha com seu funkão bate-janela, cuja vendagem já passa das 30 mil cópias. Prepara para outubro o novo de outro sulista, o Ultramen, chamado "Olelê", e "O som da moda", do Acabou Lá Tequila - nem tão na moda assim, pois está gravado há dois anos na Abril Music, que o rejeitou após a entrada da nova direção artística.

        O som punk cru dos Devotos ganhou o tempero da guitarra de Dado. Está mais pop, abriu-se até para alguns efeitos eletrônicos.

        - Foi maravilhoso ser produzido pelo Dado - diz o vocalista do Devoto, Canibal. - Ele abriu muito a nossa cabeça.

        O ouro olímpico de Dado, entretanto, é Toni Platão. Juntos os dois passaram dois anos experimentando timbres de guitarra, de teclados, composições, letras e arranjos. O músico tocou guitarra como nunca havia feito na Legião. Variou sons, experimentou montes de pedais e até solou em "Calígula Freejack".

        - No disco o Dado é quase como uma banda - diz Toni, grato ao parceiro e amigo. - Partimos do zero. Compusemos juntos, ele tocou o disco inteiro e deu a qualidade que o disco precisava.

        "O COGUMELO PLUTÃO É INACREDITÁVEL"

        Amigo, para Dado, guarda-se debaixo de montes de chaves. Por isso foi solidário com Toni na polêmica sobre a gravação de "Tudo que vai" (de Dado, Toni e Alvin L.), que fala da separação de Toni. A faixa foi parar no acústico do Capital Inicial sem conhecimento dos dois.

        - Não falo com o Alvin desde então - conta Dado. - É uma questão ética e moral. Ele deveria ter conversado com a gente antes de entregar a música ao Dinho. Não gostei da gravação do Capital. Ficou festiva demais para uma letra que fala de uma separação. E resolvemos gravá-la também no "Calígula Freejack".

        É incisivo e ácido também ao falar dos clones de Legião espalhados nas rádios.

        - Esse Cogumelo Plutão é inacreditável, uma cópia grotesca da Legião - ataca. - O vocalista (Blanch) disse numa entrevista absurda que era namorado do Renato (Russo). Nunca ouvi falar nele. Eu também poderia dizer que tive uma parceira com John Lennon, faria uma coisa meio Beatles e pronto. O cara já morreu, né? Esse cara nem merece resposta.

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