REPORTAGENS











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A trajetória completa da banda segundo Dado e Bonfá

Os legionários Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, entre coadjuvantes e personas do rock nacional, lembram o nascimento, a vida e a morte da banda mais amada e idolatrada do Brasil. Não há mentiras, nem verdades aqui, só há... música urbana!!!

O Globo - 1999

        Doze de outubro de 1996. Na porta do crematório do Caju, no Rio de Janeiro, a mãe de Renato Russo, dona Maria do Carmo, concede uma apressada entrevista ao jornal carioca O Globo.

        Indagada pela repórter se seu filho havia sido feliz, responde: "É duro dizer isso, mas tenho certeza que não. Uma vez ele me disse: 'Mãe, eu só fui feliz na infância"'. Russo (Renato Manfredini Jr.) nasceu em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro, e morreu, também no Rio, de complicações decorrentes da AIDS no dia 11 de outubro de 1996. À frente da Legião Urbana viveu a ambigüidade de ser bem sucedido na carreira artística e, ao mesmo tempo, ser a mais completa personificação do poeta sofrido. Pôr volta dos 15 anos, pro inferno ele foi pela primeira vez.

        Em entrevista à revista Marie Claire em janeiro de 1995, Renato relatou o drama de sua adolescência, em que um resultado médico mudou sua vida: "Eu estava com epifisiólise, doença que destrói a extremidade dos ossos. Minha perna estava pendurada só pela pele, entre o fêmur e a bacia. Meu mundo acabou. Fui operado e foi vítima de erros médicos o cara colocou o pino dentro do nervo. Contrações involuntárias me faziam gritar de dor. Fiz outras operações. Perdi dois anos de vida com medo de sentir dor, isolado". Renato, que já era um devorador de livros, passou esses anos de reclusão lendo tudo o que lhe caia nas mãos, especialmente livros sobre rock.

        Recuperado, começou a se interessar por um estilo específico de rock, que começava a cravar alfinetes na conservadora face da Europa.

        BRASÍLIA PUNK ROCK

        Inglaterra, Segunda metade dos anos 70. Hordas de jovens desempregados, influenciados pelo rock de garagem norte-americano, começam a fazer um som básico, sujo. Logo, bandas como Sex Pistols, Clash e Buzzcocks¹ tomaram de assalto a mídia, eclodindo o movimento punk. Brasília, 1978.

        Filho de um professor da Universidade de Brasília, Felipe "Fê" Lemos (atual baterista do Capital Inicial) acabara de votar de uma estrada na Inglaterra. "Morei lá em 77 e voltei cheio de discos punk!", Lembra-se. "Brasília estava como sempre tinha sido. Não acontecia nada. Havia as festinhas nas casas de um ou de outro e você acabava indo, convidado pelo amigo. Foi numa dessas festas que conheci o Renato." A partir daí, a amizade entre os dois se intensificou e outras pessoas começaram a fazer parte da turma. De apenas um bando de garotos que amavam punk rock para o surgimento de uma banda punk foi um pulo. Fê explica: "A gente - eu, Renato e André (o sul-africano André Pretorius) - se reuniu na Colina (conjunto de 4 prédios onde Fê morava e foi ponto de encontro dos punks de Brasília) e resolveu formar uma banda. Mas faltava o nome. Eu tinha lido sobre um grupo chamado Eletric Flag², fiquei com essa coisa a cabeça e sugeri Tijolo Elétrico. Aí o Pretórius disse: 'Que nada! O nome vai ser Aborto Elétrico!'... Um olhou pra cara do outro e falou: 'É isso aí!'

        O nome veio daí... Depois, criou-se a lenda de estudante que perdeu o nenê pôr causa de um cassetete elétrico. Mas não duvido que isso tenha acontecido, porque a repreensão em Brasília era violentíssima!".

        Os primeiros ensaios rolaram na seqüência, mas logo a banda sofreu um desfalque. Pretórius foi para a África do Sul servir o exército na segundo semestre de 79. Flávio Lemos, irmão de Fé, assumiu o baixo e Renato começou a tocar guitarra. "Ele era um guitarrista, eu diria, esporrento! Fazia uma barulheira...", diz Fé. Com cabelos descoloridos, roupas rasgadas e a palavra punk piscando na cabeça, o objetivo de Renato era chocar. "Ele adorava ver a reação das pessoas. Uma vez ele fez xixi nas calças na escada de serviço do Colina, eu fiquei chocado! Subi xingando... E ele nem aí! Ele saía na noite, todo molhado, fedendo xixi", conta. No final de 79, Pretórius voltou para Brasília para passar um mês com a família. "Foi aí que a gente ensaiou mais, fez Música Urbana e rolou nosso primeiro show", relembra Fé. O tal primeiro show do Aborto Elétrico foi em 11 de janeiro de 1980, num bar chamado Só Cana. "Foi nesse show que a palheta do Pretórius quebrou e ele tocou com os dedos", diz o baterista do Capital. "Começou a escorrer sangue pela guitarra! As pessoas não entendiam nada, mas ninguém arredava o pé! Guitarra e baixo ligados no mesmo amplificador, sem vocal, tudo rápido, pesado, distorcido e as pessoas paradas." Esse foi o momento histórico do Aborto Elétrico. Cinco anos mais tarde, Pretórius morreria vítima de overdose.

        Em 81, Iço Ouro-Preto, irmão de Dinho (atual vocal do Capital Inicial), assumiu a outra guitarra liberando Renato para ficar só nos vocais.

        Porém, em março de 82, Renato brigou com Fê Lemos por causa da música Química - Fé achava a música babaca - e declarou o fim do Aborto. Para o baterista aquilo era inevitável. "Nas férias, eu sumia de Brasília, assim como todos. Menos o Renato", assume Fé. "Ele ficava lá e queria tocar. Ele sabia o poder da música dele." Os desentendimentos crescentes, aliados à briga - que, hoje, Fé Lemos classifica como "bobagem" - por causa de Química levaram Renato a abandonar a banda.

        TROVADOR URBANO

        Como fazia durante as "férias" do Aborto, Renato assumiu de vez a persona de "O Trovador Solitário" e saiu pela cidade fazendo shows acompanhado apenas de um violão.

        A quilométrica Faroeste Caboclo é dessa época. Paralelamente, havia o grupo Dado e o Reino Animal, com Marcelo Bonfá na bateria, Dado Villa-Lobos (sobrinho-neto do maestro Heitor Villa-Lobos³) e Loro Jones - atualmente no Capital Inicial - nas guitarras e um tal de Pedro Thompson Flores nos teclados.

        O conjunto teve uma passagem efêmera pela cena brasiliense e Renato acabou conhecendo Bonfá numa festa. "Depois do fim do Aborto, eu e o Renato chegamos a tocar sozinhos algumas vezes", conta Bonfá. "Ele tocava teclado e eu tocava bateria. Mas quando a legião começou mesmo eu não sei. Existem lendas. Teve uma 'Festa do Chapéu' em que o Renato chegou pra mim e disse 'Aí Bonfá! Vamos fazer a Legião Urbana?'", busca na memória o legionário. Uma vez formado, o grupo teve problemas com guitarristas. "O Paraná (Eduardo Paraná, primeiro guitarrista da Legião) não pegou o começo da banda", continua Bonfá.

        "A gente tocava Soldados, Ainda É Cedo, Conexão Amazônica... tudo isso sem guitarra! Às vezes era bateria e teclado, bateria e voz, bateria e baixo. O Iço veio depois, porque o Paraná foi para o Sul estudar, mas também ficou pouco. Aí entrou o Dado", conta. "Me chamaram um mês antes de um festival em Brasília que iria durar um mês inteiro", lembra Dado. "A gente marcou uns ensaios e começou a fazer as músicas que acabaram virando o repertório do primeiro disco. Daí pra frente, as coisas se encaminharam. No final do ano, a gente fez umas fitas demo que tocaram na rádio Fluminense4, do Rio de Janeiro. Além disso, os Paralamas do Sucesso estavam dando uma força, tudo conspirando a favor da Legião ir pro Rio e gravar um disco."

        FOI MUITO RÁPIDO

        Final de 83. Os também brasilienses Paralamas do Sucesso haviam acabado de ser contratados pela gravadora EMI. Durante as gravações do primeiro disco do trio, Cinema Mudo, um fato chamou a atenção de Jorge Davidson, diretor-artístico da EMI entre 83 e 93: "Estava no estúdio com os Paralamas e eles começaram a tocar Química", explica Davidson, que se impressionou com a música e foi falar com o vocalista e guitarrista da banda, Hebert Vianna. "Ele me disse que era de um amigo dele, chamado Renato Manfredini Jr., que morava em Brasília e era tudo que ele - Hebert - gostaria de ser. Isso me impressionou mais ainda, porque eu já achava aquele rapaz ali o máximo e ele estava me dizendo que o outro era mais maravilhoso ainda. A partir daí, me interessei em ouvir a Legião. Recebi uma fita - por meio dos Paralamas também. Era voz e violão, o Renato tocando Eduardo & Mônica, Geração Coca-Cola, entre outras. Aquilo me impressionou terrivelmente! Acabei de ouvir a fita e liguei para Brasília para convidá-lo a vir ao Rio conversar conosco."

        "Foi muito rápido, na verdade", afirma Dado. "Entrei para a banda em fevereiro de 83 e a gente fez a primeira demo no Rio no final do mesmo ano. Nesse mesmo período, o Renato cortou os pulsos numa tentativa de suicídio - ele cortou os pulsos e correu pra mãe: 'Manhê! Cortei os pulsos!' - e o levaram para o hospital. Ele já queria se ver livre do baixo. Apesar de ser um excelente baixista, ele ficava meio preso por ter de tocar e cantar. Aí, o Bonfá chamou o Negrete (Renato Rocha, gravou os três primeiros álbuns da Legião). O Renato se recuperou e nós fomos gravar no Rio. A EMI chamou a gente pra fazer uma espécie de demo que iria virar um compacto."

        "EU QUERO É GRANA!"

        O compacto acabou virando um LP, o primeiro da Legião, intitulado simplesmente Legião Urbana. Mas atritos com produtores quase inviabilizaram o disco. "Botaram o Marcelo Sussekind (produtor, co-produziu recentemente De Volta Ao Planeta, do Jota Quest) para produzir a gente", conta Bonfá. "Ele queria que Geração Coca-Cola fosse country! Pô, a gente era punk! Começaram a encher tanto o saco, que eu falei: 'Olha pessoal, tô indo pra casa!'. E eles disseram 'não, mas peraí... vocês têm um contrato!'... A gente cagava pra essas coisas! Aí colocaram um outro cara, o Ricky... era o Ricky o cara que queria fazer o country? Não lembro... acabou que ficou o Zé Emílio (o jornalista José Emílio Rondeau) como produtor, mas eu tive uma briga legal com ele!", ri Bonfá.

        "O Bonfá é uma pessoa muito difícil no estúdio", entrega Dado. "Eles brigaram e o Zé Emílio falou "então foda-se, tchau, vou embora!' Ele foi pro estacionamento e o Renato foi atrás dele." José Emílio lembra do ocorrido. "Eu falei que ia embora porque não tinha mais paciência pra fazer o disco. O Renato veio junto dizendo 'pára com isso, deixa de ser bobo' e ficamos conversando... Aí, ele disse 'Rondeau, sabe o que eu mais quero?' Falei que ele queria que as pessoas gostassem do disco. Ele falou 'Não! O que eu quero é grana! Eu tô precisando é de grana!' Aquilo me desarmou. Falei: 'Peraí gente! Vamos dormir, esfriar a cabeça'. No dia seguinte estava tudo ótimo!"

        O primeiro compacto Será?, fez grande sucesso no verão de 85 e transformou a Legião na mais nova sensação vinda de Brasília. O disco de estréia vendeu bem, surpreendendo a banda e a própria gravadora. "Na gravadora, ninguém dava nada. Só que o disco vendeu, na época, 50 mil cópias", relatou Renato Russo em entrevista publicada no jornal O Estado de São Paulo, em dezembro de 95. Mas o sucesso estrondoso veio mesmo com o segundo disco, o Dois, de 86, que vendeu, na época, quase um milhão de cópias. O sucesso havia chegado para os punks de Brasília. "No primeiro disco, a gente tocava em danceterias. No Dois, a gente já estava tocando em ginásios", explica Dado. "É um disco muito bacana, apesar das pessoas falarem, por causa de Tempo Perdido, que éramos os Smiths brasileiros. Quando a gente fez o arranjo dessa música, a gente estava em Brasília e nunca tinha ouvido falar em Smiths. E ficaram insistindo naquela tecla, quando no disco tinha Eduardo & Mônica, que não tem nada a ver com Smiths, Andréa Dória5, Índios, que tocou do Oiapoque ao Chuí, rádio AM e FM... Lembro de estar indo visitar Savalla (Carlos Savalla, técnico de som dos Paralamas que deu uma força nas gravações do Dois) e ver um peão com um radinho AM na mão ouvindo essa música. Foi incrível, realmente. A gente tinha muitos sucessos nesse disco."

        NEGRETE FORA

        Em 87, a Legião lançou um terceiro disco, Que País É Este, marcado pôr releituras da fase punk com o Aborto Elétrico. O álbum aumentou o sucesso da Legião, trazendo todas as devidas conseqüências. "A gente passou de ginásio de esportes a tocar em estádios de futebol. Estávamos sendo pioneiros nisso", recorda Dado. Em junho de 88, rolou em Brasília, no estádio Mané Garrincha, o show-caos, tido como fatídico pôr Dado. Além da falta geral de experiência na produção de eventos desse porte, Dado aponta como causas para a catarse do público a mistura altamente explosiva do repertório da banda com a atitude punk de Renato Russo. "A gente abriu aquele show com Que País É Este, e o público ficou fora de controle. Era punk rock brasileiro. Não era só entretenimento, era entretenimento e provocação, como se o Renato intimasse: 'Eu quero respostas de vocês agora, já!' E era muita gente, o Mané Garrincha lotado. Não demorou muito, jogaram bombas no palco. As grades de segurança foram desencaixadas e passavam de mão em mão. Nisso, subiu aquele cara que agarrou o Renato. Ele não ia fazer nada, mas foi assustador! Tocamos mais de uma hora até que não deu mais. Depois desse show, a Legião nunca mais voltou pra Brasília."

        O disco seguinte, As Quatro Estações, de 1990, foi marcado pela saída de Negrete e pôr uma retomada do caminho iniciado no Dois. "Terminou o Que País É Este e o Renato disse 'a gente não pode continuar nisso que a gente tá. Vamos fazer umas coisas mais leves, na paz'", conta Dado.

        "Daí, vieram Pais & Filhos, Monte Castelo, coisas bem mais espirituais. A gente começou a fazer as músicas nos estúdios da gravadora, no Rio, e o Negrete tinha ido morar numa fazenda. Ele não aparecia e quem pegava o baixo era eu ou o Renato. E as coisas oram caminhando assim, até que o Negrete praticamente se auto-ejetou da banda", explica o guitarrista. Bonfá completa: "A gente estava no estúdio, fazendo As Quatro Estações. Ele chegava e ficava tocando pra dentro, sabe? Não saía nota nenhuma. O Negrete saiu e eu disse 'beleza!' Sempre gostei dele, ele é muito legal, mas, musicalmente a gente não se entendia." A Legião voltava a ser um trio.

        PRO INFERNO PELA SEGUNDA VEZ

        O disco As Quatro Estações levou a Legião Urbana a estourar de vez.

        O grupo fez uma extensa turnê pelo País, com estádios lotados, e tudo sempre correndo na santa paz. Parecia que as coisas estavam na boa, principalmente para Renato, que resolvera, dois anos antes, em 88, assumir publicamente sua homossexualidade. Mas uma notícia mudou tudo. "No final da excursão As Quatro Estações, o Renato estava num estágio avançado de alcoolismo", conta Dado. "Ele achou por bem ser internado numa clínica. Lá, fizeram o teste de HIV." Para infelicidade de todos, o teste deu positivo.

        Novamente um diagnóstico médico mudou a vida de Renato. E, conseqüentemente, de toda a Legião. Russo ia ao inferno pela segunda vez.

        "Não me lembro exatamente quando foi que eu fiquei sabendo que o Renato era soropositivo", explica Bonfá. "A gente pensou em como poderia se ajudar. Vamos trabalhar? Ficou provado que - até o último momento - essa era a coisa que mais importava. Principalmente pro Renato. O que a gente podia fazer? 'Não vamos parar, não! Não vamos falar de nada...' Eu nunca falei de nada! Se ele quisesse conversar comigo, talvez eu até tentasse. Mas ele nunca falou nada sobre isso." Na época, a banda sumiu de cena, parou de excursionar. A mídia, os fãs começaram a criar suposições sobre o que teria acontecido. Dado conta: "As pessoas especularam sobre o porquê de a gente ter parado de fazer shows e tudo. Na verdade, isso aconteceu porque o Renato se descobriu HIV positivo. Isso gerou uma série de decisões a serem tomadas. O Renato tinha um físico de touro, mas a partir daquele momento as coisas teriam de ser revistas em relação à saúde dele. A gente começou a fazer menos coisas e só sob controle."

        VIAGEM PROGRESSIVA

        Em 1991, em plena era Collor, longe dos palcos e com tudo sob "controle", a Legião lançou seu quinto álbum, V. repleto de canções longas, com temas pesados, o disco é um retrato fiel da época. Dado Villa-Lobos comenta o trabalho: "O V é mais viajante que o As Quatro Estações. A gente estava numa viagem meio progressiva, com pop e tal. Ele fala muito sobre drogas. A Montanha Mágica é impressionante, uma das minhas músicas favoritas daquele disco. O Renato estava clean (sem usar drogas ou álcool) nessa época, mas havia passado por uma fase brava. Ele estava reestruturando a pessoa dele. Foi um disco estranho, foi uma época estranha. Parecia que tinha uma nuvem negra em cima da gente e era o Collor - espero que São Paulo não eleja esse idiota. E foi um disco bem carregado das emoções e percepções daquela época". Em 92, a Legião gravou o Acústico MTV, fazendo releituras desplugadas para sucessos da banda, além de algumas covers. "O Acústico é um registro histórico de tudo que estava rolando", analisa Bonfá. "Não é 'o novo disco da Legião Urbana'. É um 'novo mas velho' disco da Legião", avisa. Por essa época, também saiu Música Para Acampamentos, com versões ao vivo e raridades da Legião. Em 93, foi a vez de O Descobrimento Do Brasil, sexto álbum com material inédito da banda. "O Descobrimento Do Brasil foi uma evolução da Legião, em matéria de sonoridade", diz Bonfá. No ano seguinte, Renato lançou seu primeiro disco-solo, o The Stonewall Celebration Concert. O álbum, cujo título cita o Stonewall6, um evento marco na luta gay, é uma coleção de covers em inglês, revelando o lado crooner de Renato. Em seguida, mais um solo de Russo, o Equilíbrio Distante, desta vez uma visita ao universo pop romântico italiano. Em 96, já debilitado pela doença, Renato gravou o que seriam as últimas musicas da Legião Urbana. "Era muito triste saber que o fim estava chegando, que você tinha que produzir o disco e conviver com aquilo", recorda Dado. "Pra esse disco, a gente fez umas 30 músicas e Renato ia pouco pro estúdio", conta Bonfá. "Um dia, eu liguei para ele e falei que tinha separado as músicas em duas listas.

        O Renato ficou duas horas comigo ao telefone, falando um monte. No final das contas, passei as listas para ele e ele acabou aprovando." Da primeira lista, resultou o disco A Tempestade de 96. João Augusto, diretor artístico da EMI entre 93 e 97, lembra daquela época: "Quando fomos fazer a masterização de A Tempestade, fomos até a casa do Renato buscar as instruções e ele estava muito debilitado. Mas eu continuei mentindo pra mim, continuei aceitando a hipótese de anorexia nervosa, que era o que ele falava".

        "...E FOSSE O FIM CHEGANDO CEDO"

        João Augusto ficou preocupado quando algumas rádios cariocas começaram a noticiar que Renato havia cometido suicídio. Tranqüilizou-se ao ligar para a casa dele e descobrir que estava tudo bem. Sabendo dos boatos, Dado rumou ao apartamento do amigo em Ipanema e foi informado de que Renato não comia há vários dias e se recusava a sair do quarto.

        Pouco depois, Renato morria em seu apartamento no Rio de Janeiro. Rafael Borges, empresário da Legião Urbana, conta como foi que recebeu a notícia. "O médico que o assistia me ligou à uma hora da manhã dizendo que Renato em estado crítico. Liguei pro Dado e pro Bonfá, avisando. A gente já havia feito uma visita e sabia que ele estava na fase terminal, já estava em coma e, quando o médico me ligou, ele tinha acabado de falecer. Quando cheguei, o Dado e o Bonfá já estavam lá. Nós fomos encaminhando as providências práticas que deveriam ser tomadas de acordo com a vontade do Renato."

        Em 97, foi lançado o disco da outra lista feita por Bonfá e aprovada por Russo, Uma Outra Estação. "A idéia não era lançar depois que ele tivesse morrido", afirma Bonfá. "Tem gente que não entende isso. Recebo e-mails até hoje com gente dizendo 'vocês lançaram aquela música que o Renato não queria que fosse lançada!' A gente ia lançar o disco com o intervalo que foi lançado mesmo."

        Após a morte de Renato, ainda foi lançado O Último Solo, com sobras dos dois discos solo dele. Terminava o ciclo da banda mais cultuada, amada e idolatrada do rock brasileiro, capaz de comover gente das mais diversas camadas sociais e faixas etárias. Dado lembra de uma história dos bastidores do Jornal Nacional.

        "Não sei se é verdade, mas alguém contou que quando o Renato morreu, era época da Lillian Witte Fibe e do Willian Bonner. Toda a equipe estava discutindo a pauta e a Lillian chegou, e falou: `Vem cá, vocês não estão achando meio exagerado isso? Dez minutos no Jornal Nacional? É isso tudo mesmo? Vai pegar o jornal inteiro!'. Aí o Willian Bonner virou pra ela e começou a cantar: 'Não tinha medo o tal João de Santo Cristo...'" Convenhamos. Na época da morte de Renato, o Willian Bonner já não era nenhum adolescente.

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"Não percebi correntes me prendendo aqui até o instante em que tentei partir."
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